Tratamento da enxaqueca exige sintonia fina entre médico e paciente

No meu último post por aqui sobre enxaqueca, encerrei o texto enfatizando que o caminho para mitigar as dores e todo o sofrimento causado por esse quadro exige uma caminhada lado a lado entre o paciente e o seu médico. Acho importante desenvolver melhor essa ideia, tão essencial para o sucesso do tratamento.

No tratamento da enxaqueca, é muito importante que médico e paciente estejam em sintonia

Primeiro, é preciso ter clareza sobre uma premissa: a enxaqueca é uma doença crônica. Isso significa que uma vez confirmado o diagnóstico, sai de cena a ideia de cura definitiva para as crises e entra uma proposta de plano de ação para mantê-las sob controle.

Diminuir a intensidade e a frequência dos episódios de dor e todo o mal-estar associado são as primeiras metas a se vislumbrar. Mas alcançar a melhor qualidade de vida possível, apesar da existência do quadro, será o nosso grande objetivo.

Na minha abordagem usual, havendo condições no quadro clínico, adoto a terapêutica com toxina botulínica como ponto de partida. Até porque, já logo após a primeira aplicação, podemos esperar algum impacto positivo sobre os níveis de dor (intensidade) e um maior espaçamento entre as crises. Com o tempo, o que se espera é uma mudança geral (para melhor) nesses padrões: dores cada vez menos intensas e menos frequentes.

Com as injeções de toxina botulínica, as crises ficam menos intensas e mais espaçadas

Mas é essencial termos em mente, também, que a resposta de cada organismo é individualizada. Uma grande lista de variáveis irá influir na evolução dos resultados, e é preciso estarmos preparados para observar, entender e nos ajustarmos a isso. Nesse sentido, contam, por exemplo: as características genéticas, o histórico clínico, a existência ou não de outras comorbidades (doenças associadas), o estado geral de saúde do paciente, etc.

Para auxiliar nessa observação individualizada, peço ao paciente que mantenha um “diário da dor” (que pode ser numa planilha de papel ou em alguns dos vários aplicativos de celular que já existem hoje para essa finalidade) para registrar a frequência (dias de ocorrência), a duração (horários de início e fim) e as características das crises (níveis de dor, localização, tipo de dor, sintomas associados, etc.).

Também é muito importante referir se houve ou não o uso de medicação e tomar nota de algum possível gatilho associado (comidas e/ou bebidas ingeridas, situações de estresse, descontinuidade de sono, mudanças importantes na rotina, etc.). Esses feedbacks são valiosíssimos para o médico.

Mas aqui entramos também na seara de dois fatores de enorme influência no sucesso do tratamento:

1) A identificação e a gestão dos gatilhos das crises;

2) Uma relação consciente do paciente com a medicação prescrita (se houver).

Identificar e gerir os gatilhos das crises significa estar atento ao rol de fatores já amplamente conhecidos como potenciais desencadeantes dos episódios (como alimentação, sono, cansaço, estresse, calor, etc.) – prestando atenção àqueles que mais diretamente estão associados ao seu quadro individual, e estando disposto a traçar estratégias para neutralizá-los o máximo possível. Trata-se de um jogo de tentativa e erro, no qual é preciso grande dose de perseverança e muita observação para ir fazendo os ajustes necessários.

Em paralelo, temos sempre a possibilidade do uso das medicações de controle e de alívio. As primeiras, quando utilizadas, visam manter a estabilidade do organismo frente às condições potencialmente causadoras das crises. As segundas, como o próprio nome diz, visam trazer conforto nos momentos em que a dor eventualmente se instalar.

Pois bem, entendidos todos esses tópicos, vem agora aquele que talvez seja o maior pacto de confiança entre médico e paciente: a aposta nas mudanças de estilo de vida.

Alterar hábitos e sair da zona de conforto exige muito de qualquer pessoa. E para alguém que já está cansado de sofrer com dor, então, isso pode parecer pedir demais. Mas esse é o ponto em que nós, especialistas no assunto, precisamos insistir, porque é onde sabemos que a pessoa poderá, finalmente, tomar as rédeas da sua qualidade de vida:

– Prática regular de atividade física;
– Alimentação bem balanceada;
– Controle de peso;
– Boa gestão dos níveis de estresse;
– Higiene do sono;
– Abstenção do tabagismo;
– Consumo moderado de álcool;
– Atenção e tratamento a transtornos psicoemocionais instalados (como depressão e ansiedade, entre outros).

Todos esses são componentes muito importantes em toda a engrenagem. Isso significa que, quando negligenciados, esses fatores contribuem para a manutenção de um ciclo vicioso, causador de crises. Mas, quando bem trabalhados, eles colaboram diretamente para um círculo virtuoso gerador de bem-estar, capaz de mudar a realidade do paciente portador de enxaqueca.

Essa publicação foi atualizada em 26 de julho de 2019 12:35

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