Precisamos falar sobre saúde mental

Ao longo destas duas primeiras décadas do Século XXI, temos vivido dias sem precedentes em termos de acesso à tecnologia, comunicação, conectividade e bens materiais. Paradoxalmente, nunca a solidão foi tão prevalente e impactante entre a população dos países desenvolvidos e em desenvolvimento, e nunca tivemos índices tão altos de problemas psicoemocionais.

Nunca os índices de solidão e depressão foram tão altos nas sociedades desenvolvidas ou em desenvolvimento

Isso significa que precisamos fazer profundas revisões no nosso estilo de vida? Sem dúvida!

Mas o curso da História anda para frente, e rejeitar toda a evolução tecnológica tivemos até aqui não me parece ser a solução. Apesar de hoje existirem diversos movimentos mundo afora que defendem isso – atacando, inclusive, a própria Ciência -, penso que o único caminho positivo a seguir seja justamente o de aprendermos a utilizar tudo o que está aí a nosso favor.

Novos paradigmas

E como faremos isso? Primeiramente, entendendo melhor as nossas necessidades como seres humanos: parando de minimizar a nossa sede real por convívio, afetos, aceitação e pertencimento, por exemplo. Admitindo que sofrer, ter medos, angústias e questões emocionais a serem resolvidas não é motivo de vergonha ou algo menos importante do que os cuidados que precisamos ter com o corpo.

A conscientização a esse respeito já é um processo em curso, conseguindo importantes provocações nos debates no espaço público, com o grande mérito de, pouco a pouco, fazer com que as pessoas percam o receio de falar sobre depressão e transtornos mentais de uma forma geral.

Uma das importantes ações nesse sentido é a campanha Janeiro Branco, que há pelo menos sete anos propõe iniciativas em torno dos esclarecimentos sobre saúde mental.

Neste ano, a frase “Precisamos falar sobre saúde mental” é um convite direto aos especialistas no assunto, para que se engajem em atividades de psicoeducação. Ou seja: estamos todos convocados para o desafio de fazer as pessoas entenderem que saúde é um estado geral de bem-estar físico, social, mental e emocional – e não apenas ausência de doenças. Além disso, é preciso também orientar sobre COMO e COM QUEM buscar os tratamentos mais adequados e seguros.

Descobertas

Se há um campo em que grandes descobertas têm sido feitas nos últimos anos é o da saúde mental e da sua estreita relação com a saúde global do organismo. Hoje temos tratamentos de ponta, como a Neuromodulação (Estimulação Magnética Transcraniana – EMT), onde, por meio de ondas eletromagnéticas, sem qualquer tipo de processo invasivo, conseguimos em poucas sessões a melhoria no estado depressivo do paciente.

A Neuromodulação (Estimulação Magnética Transcraniana) é um tratamento de ponta disponível contra a depressão

Muitas vezes, a EMT pode até eliminar a necessidade de uso de medicações. Mas essas, por sua vez, também têm evoluído, com o surgimento de drogas de ações mais específicas e com menos efeitos colaterais. Atualmente, já e possível inclusive avaliar por meio de exames de sangue a qual medicamento o indivíduo pode responder melhor em seu tratamento.

Enquanto isso, a Psicoterapia segue com o seu papel crucial no suporte e acompanhamento desses pacientes, com as diversas linhas de abordagens feitas por psicólogos e psiquiatras, sob criteriosos protocolos de conduta.

Ao mesmo tempo, nos consultórios de todas as especialidades vai se consolidando a visão de que além daquilo que revelam os exames laboratoriais e de imagem, precisamos OUVIR o paciente e saber como ele se sente e se posiciona em seu meio ambiente. Afinal, já não são poucos os estudos que mostram os impactos da solidão no aumento de riscos de AVC, infarto e hipertensão arterial, por exemplo. Em se tratando de depressão, então, ninguém tem mais dúvidas sobre o seu poder devastador sobre toda a saúde.

Sendo assim, cada vez mais trabalhamos de forma multidisciplinar. E cada vez mais torna-se evidente que, diante do mundo desenhado à nossa volta, mais que cuidar de doenças, todo o aparato tecnológico e científico que temos à nossa disposição precisa ser colocado para cuidar de pessoas!

Essa publicação foi atualizada em 11 de janeiro de 2020 15:11

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