Categorias: Neurorreabilitação

Conceitos básicos para melhor compreender a Paralisia Cerebral

Hoje vivemos, no campo científico, uma intensa movimentação em torno de pesquisas e descobertas sobre a Paralisia Cerebral. Mas, mesmo com todos esses avanços, para a maioria das famílias das crianças atingidas pelo problema, todo o processo que vai da investigação à confirmação diagnóstica, passando pela compreensão dos prognósticos, ainda é como serem arremessadas para um universo desconhecido e, a princípio, muito assustador.

Em geral, o neurologista infantil que coordena o tratamento procura oferecer o máximo de esclarecimentos e orientações possíveis (ou pelo menos é assim que deveria ser!).

Mas sabemos também que os pais não se limitam a isso. Eles “arregaçam as mangas” e vão em busca de mais informações. Afinal, na grande maioria das vezes, existe neles um desejo natural de alargar os conhecimentos sobre o assunto e de seguir sempre em busca de notícias que possam apontar para melhores hipóteses na condução do tratamento.

Ciente dessa realidade e visando atender também o pedido de muitos pais de fora de São Paulo, que me procuram nas redes sociais, solicitando explicações e dicas, eu me comprometi em publicar aqui no blog uma série de textos, abordando algumas das principais dúvidas que recebo. Grande parte delas passa pela necessidade de entender o que vem a ser realmente a Paralisia Cerebral, compreendendo melhor as suas classificações e percebendo o que é possível esperar desse quadro clínico.

Portanto, é por este conjunto básico de conceitos que iremos começar:

O QUE É PARALISIA CEREBRAL?

Paralisia Cerebral é o termo genérico usado para um quadro que, clinicamente, chamamos de encefalopatia crônica não progressiva. Ele indica que em alguma área do cérebro (encéfalo) há alguma lesão/problema (patia) permanente (crônica), que não progredirá ao longo da vida (não progressiva). Essa lesão, por sua vez, causa (ou pode vir a causar) problemas de desenvolvimento (alterações motoras, cognitivas e comportamentais) e, em muitos casos, também a epilepsia.

QUAIS AS CAUSAS DA PARALISIA CEREBRAL?

A prematuridade é um fator de risco para a Paralisia Cerebral, mas isso NÃO quer dizer que todos os bebês prematuros tenham PC

As causas da Paralisia Cerebral são as mais variadas, sendo que, dentre as principais, podemos citar:

  • Malformaçõess cerebrais ou da coluna espinhal;
  • Problemas durante a gestação (como doenças e infecções sofridas pela mãe)
  • Complicações durante o parto;
  • Partos prematuros;
  • Icterícia neonatal grave;
  • Infecções do sistema nervoso central (como as meningites, por exemplo) sofridas pela criança ao longo da primeira infância;
  • Traumatismos;
  • Acidente vascular cerebral (AVC) na infância;
  • Semi-afogamento durante a infância.

*É importante ressaltar, contudo, que, na maioria desses casos, estamos falando de POSSÍVEIS causas, a serem confirmadas apenas após uma criteriosa investigação diagnóstica. O simples fato da criança passar por qualquer um desses eventos NÃO é uma sentença de que ela sofrerá uma Paralisia Cerebral.

ATÉ QUE IDADE PODE OCORRER A PARALISIA CEREBRAL?

O agravo cerebral que determina a PC ocorre na gestação, no parto ou ao longo da primeira infância e perdura por toda a vida

A Paralisia Cerebral é um quadro estabelecido durante o período gestacional ou na primeira infância, mas que, devido ao seu caráter crônico, irá perdurar por toda a vida – ou seja, a lesão cerebral sofrida não irá regredir com o avanço da idade, mas também não irá aumentar.

COMO SE CLASSIFICA UMA PARALISIA CEREBRAL?

Três grandes critérios são utilizados para classificar a Paralisia Cerebral: o padrão motor, a topografia e o grau de comprometimento

1) PELO PADRÃO MOTOR (pelos tipos de comprometimentos causados a nível cerebral, que irão comprometer os movimentos da criança):

  • Espástica (contração/ hipertonia muscular involuntária / rigidez muscular);
  • Discinética (movimentos involuntários, que independem da vontade do paciente; são repetitivos, pioram com a intenção do movimento e podem levar a alterações posturais). Nesse grupo estão os distúrbios do movimento, como as distonias, a coreia e a atetose, por exemplo;
  • Atáxica (pouco ou total descontrole muscular para realizar movimentos voluntários, como andar ou pegar objetos – o paciente e muito descoordenado);
  • Hipotônica (diminuição do tônus muscular).

*Esses padrões motores muitas vezes coexistem e se sobrepõem, sendo necessária uma atenta observação do paciente, para compreendermos as suas manifestações clínicas e determinar quais as melhores medidas terapêuticas a serem propostas.

2) PELA TOPOGRAFIA (a região do corpo afetada aponta a área do cérebro onde está a lesão):

  • Hemiparesia (metade inferior ou superior do corpo é atingida pela disfunção);
  • Monoparesia (um membro é afetado, seja membro superior ou inferior);
  • Tetraparesia (o paciente tem os quatro membros afetados);
  • Diplegia/diparesia (termos usados para designar dois membros afetados, em geral os inferiores).

3 ) PELO GRAU DE COMPROMETIMENTO

Os níveis de comprometimento gerados pela Paralisia Cerebral variam muito de pacientes para pacientes. Dois pacientes com uma lesão na mesma área do cérebro podem apresentar comprometimentos diferentes. O nível de comprometimento é avaliado, então, conforme a sua extensão e gravidade, levando muito em consideração o grau de autonomia daquela criança para os padrões da sua idade. Os especialistas utilizam uma escala de 1 a 5 para determinar o grau de comprometimento. Geralmente, o grau ou nível não muda com o tempo: quanto menor o grau de autonomia, maior o nível de comprometimento.

QUE COMORBIDADES ACOMPANHAM A PC?

O tratamento das comorbidades associadas à Paralisia Cerebral é fundamental para garantir a qualidade de vida do paciente

Essa é uma questão muito importante a ser entendida pelas famílias: o termo comorbidade designa a presença de duas ou mais doenças, que coexistem. No caso da Paralisia Cerebral, existem alguns quadros que sabemos ter um grande potencial de surgirem em comorbidade, e que exigem a nossa atenção, para serem devidamente tratados, tão logo se manifestem, dando ao paciente melhores condições para a sua evolução. Devemos destacar:

  • Dor: as estatísticas mostram que 3 a cada 4 pacientes com PC vão apresentar dor em algum momento, em algum local. Embora ainda haja muito a ser estudado e descoberto em relação à dor associada à Paralisia Cerebral, é mais do que razoável pensarmos na alta probabilidade dela aparecer em um indivíduo que convive com sérios comprometimentos musculoesqueléticos (tais como: músculos encurtados, hipertônicos, movimentos involuntários, etc.) e que está condicionado em seus movimentos;
  • Espasticidade: é o quadro caracterizado pelas contrações exageradas dos músculos (causando, em consequência, uma série de outros problemas, como a dor e a obstipação intestinal). É uma das manifestações mais recorrentes nos pacientes com PC, sendo que a falta de um tratamento adequado impacta diretamente no bem-estar, na qualidade de vida e na evolução dos pacientes;
  • Distonias: também são distúrbios do movimento muito recorrentes, caracterizados pela presença de movimentos involuntários e repetitivos. Sem tratamento, essas manifestações comprometem muito a qualidade de vida, levando a um grande esgotamento físico e emocional (do paciente e também dos cuidadores);
  • Sialorreia: caracterizada pela incapacidade da pessoa de engolir toda a saliva produzida ou por uma maior salivação, devido ao uso contínuo de determinados medicamentos – principalmente medicações anticonvulsivantes. Nesses casos, a saliva pode tanto ficar continuamente sendo extravasada pela boca (o paciente baba), como ficar concentrada na garganta, aumentando os riscos de broncoaspiração (que por sua vez aumenta os riscos de pneumonia);
  • Epilepsia: ela atinge 1 em cada 4 pacientes com PC, sendo que o grau de intensidade varia muito, podendo ir de crises mais leves até às epilepsias de difícil controle;
  • Deficiência intelectual: uma lesão cerebral não significa necessariamente a existência de déficit cognitivo. Contudo, estatisticamente, vemos que isso acontece em cerca de 50% dos casos. Uma vez presente, esse déficit precisa ser entendido e as terapias de suporte possíveis devem ser proporcionadas, para propiciar a essa criança as melhores condições possíveis para o seu desenvolvimento, dentro de suas possibilidades.

Essa publicação foi atualizada em 26 de agosto de 2019 14:34

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